Reconhecer o papel da enfermagem narrativa na prática da enfermagem oncológica

É uma metodologia/abordagem que valoriza as histórias dos doentes e dos profissionais de saúde, promovendo uma compreensão mais profunda das suas experiências, desafios e emoções ao longo da jornada oncológica. É também uma ferramenta de comunicação e de investigação.

Falamos de Enfermagem Narrativa, tema central da primeira sessão educacional da AEOP18, moderada por Joana Silva e por Jorge Freitas, enfermeiros da ULS Gaia/Espinho e do IPO Porto, respetivamente. A Peniche, a enfermeira Susana Miguel, da Universidade Católica Lisboa – Faculdade Ciências da Saúde e Enfermagem, trouxe um outro olhar sobre a prática, apontando para a importância de reconhecer a enfermagem narrativa na enfermagem oncológica, uma vez que esta pode ser uma ferramenta essencial na comunicação, no apoio emocional e na melhoria da qualidade dos cuidados prestados.

Descrevendo as narrativas como relatos subjetivos e pessoais contados a outros na forma de histórias, Susana Miguel explicou que “a análise e interpretação destas narrativas tem o potencial de oferecer perceções profundas e únicas sobres as experiências vividas de indivíduos, particularmente no contexto de doença”, acrescentando que “as narrativas são fontes válidas para informar a prática profissional, já que permitem compreender melhor as dimensões emocionais, psicológicas e sociais da doença”.

Segundo a preletora, “as narrativas oferecem uma perspetiva diferente para a compreensão da doença, ao mudar o foco de sinais, sintomas e manifestações clínicas para uma compreensão mais centrada na experiência vivida pela pessoa”. E embora as histórias das pessoas possam parecer narrativas simples de um acontecimento, estas contêm frequentemente pistas para sentimentos complexos e respostas à doença, diagnóstico, sintomas e intervenções.

Em jeito de conclusão, Susana Miguel salientou que as narrativas têm o poder de transformar o pensamento; as histórias das pessoas revelam o significado por detrás da doença e dão uma visão única da experiência vivida por uma pessoa; as narrativas são fontes válidas para informar a prática profissional.

Metodologia de investigação em Saúde

Além de uma excelente ferramenta de comunicação, a enfermagem narrativa “é apropriada para a investigação em saúde”, na medida em que “permite compreender as experiências individuais de doença, sobre os cuidados de saúde e o que as pessoas valorizam no cuidar”.

Quem o diz é Inês Frade, do Hospital Luz Lisboa, que com base em evidência vária, demonstrou que “a utilização da investigação narrativa permite a reflexão, o aprofundamento da compreensão dos eventos e facilita a aprendizagem, a aquisição de conhecimentos e o crescimento nas práticas profissionais”. De acordo com a enfermeira, “as narrativas sobre as histórias de doença podem ser utilizadas para explorar as experiências e melhorar os cuidados de enfermagem”. Este conhecimento, por sua vez, pode aumentar a qualidade e a segurança dos cuidados de enfermagem, além de ter benefícios para as pessoas que participam na investigação.

A enfermagem narrativa também constitui uma metodologia adequada a população vulnerável, adiantou a preletora, já que ao estudar a experiência na perspetiva da pessoa, dá voz ao vivido pelos participantes após reflexão pelos próprios. Há, assim, uma validação constante pelos participantes.

Os resultados da aplicação desta metodologia, concluiu Inês Frade, não podem ser generalizados, mas admite-se que possam ser transferidos para situações semelhantes, de forma a ajudar os profissionais a redefinirem a sua prática, para melhor atender às necessidades das pessoas durante a experiência da doença.